Ontem eu e Ludmilla recebemos o casal Aero-Willys, amigos de anos - quase 20. Tanto nós quanto eles batalhamos duro para nos manter na classe média. As vezes o pé escapa aqui, a mão escorrega dali, mas estamos conseguindo.
Pra variar decidimos ser chiques: colocar em prática o alquímico e mirabolante plano de fazer em casa um fondue de queijo sem ser de caixinha. Os estudos culinários e principalmente os financeiros foram intensos. Após semanas de pesquisas marcamos para ontem.
O mais legal foi anteontem: eu, incumbido de comprar os queijos, penteei a vasta cabeleira e caminhei um quarteirão até o Palácio dos Queijos. Uau! Com esse nome deviam estar todos lá: estepes, gorgonzolas e parmentinos. Entrei e dei boa tarde para a funcionária:" vocês tem queijo tipo gruyere? Para fondue"
Ela vacilou. Daí tirou do balcão um camembert que parecia estar ali a anos. E acrescentou uma caixa do fondue de queijo em caixinha - o famoso requeijão quente. Agradeci e fui até o Carrefour.
Ali, enquanto o povão se aglomerava no balcão pedindo queijo prato a 8,90 eu examinava como um conhecedor profundo fatias de gouda e ementhal. Fiz uma seleção
magnifique e, me achando o máximo, rumei para a seção de vinhos. Um branco seco argentino no carrinho, fui em estado de glória para o caixa. Provavelmente abririam caminho para mim e a caixa me olharia espantada: "entre outros meros mortais que compram goibada e sabão e pó Tixan tenho o prazer de atender esse homem que comprou ingredientes tão finos..."
Tive que pegar a fila quilométrica. Uns 20 minutos depois o placar eletrônico me envia ao caixa 45 onde uma operadora com o olhar do garfield me espera. Tiro as coisas do carrinho e dou boa tarde. Em lugar de responder ela diz, com os olhos caidos:
- O sr. pode puxar o carrinho?
Puxei o carrinho. Ela passa os queijos no leitor como quem passa solas de sapato.
- "trinta e quatro e sessenta e cinco", resmunga.
Com a confusão da fila, a "exaustão mental" na escolha dos queijos, o supermercado lotado, a busca pelos centavos para facilitar o troco me atrapalho e entrego R$30,65. Ela me olha como se eu fosse a coisa mais ridícula do mundo. Os olhos caidos quase até o pé, a boca se movendo por baixo:
-"TRINTA E QUATRO e sessenta e cinco".
-"Ah, desculpe", dei mais 10.
Depois de afastar as minhas compras com o braço aperta o botão e convoca a próxima vítima, digo, cliente. Embalo os queijos e o vinho nas sacolas e saio caminhando rápido, repassando a receita do fondue na cabeça. Tentando resgatar a dignidade.