Não costumo falar sobre assuntos muito contundentes que invadem a tv e os jornais e normalmente tem um conceito óbvio ao qual não teria quase nada a acrescentar além do senso comum. Por exemplo, sobre os ataques terroristas em Londres não escrevi nada pois era clara a indignação de todos, acrescentar o que? Além disso, ver desgraça na tv e nos jornais já enche, entrar num blog pra ver mais desgraça não dá.
Não ia falar nada dessa onda de violência em São Paulo se não tivesse saido pra levar a Alisson, nossa cachorra velha, para banho e tosa agendado desde quinta. Saí de casa tranquilo, ciente de que os problemas de segurança eram concentrados contra a polícia e em determinados lugares. Além disso não moramos em local perigoso e não vi nada que pudesse alterar a rotina.
No pet shop, enquanto conversava sobre o corte da velha cachorra preta, chega um cliente apavorado: "estava tendo tiroteio não sei aonde, a polícia me parou apontando as armas, pensei que iam me fuzilar...". O pessoal ao redor fez aquela cara de enterro e eu ali esperando, querendo saber quanto tempo ia demorar a faxina na Alisson.
Na volta tinha de pagar o plano de saúde e parei no Carrefour do Praiamar Shopping. Daí me encontrei no pior lugar para se estar numa crise: uma fila. Tramelas abertas:"botaram fogo no Pão de Açúcar de São Vicente", "metralharam duas escolas na Ponta da Praia", "o Gonzaga está fechado e assaltaram todas as lojas da rua Bahia", "já fecharam o shopping e vão fechar o Carrefour".
De tanto ouvir você começa a ficar nervoso. A lerdeza dos usuários de caixa eletrônico é a mesma com crise ou sem crise e a fila foi aumentando. Toca o celular do fulano a minha frente, ele já repassa o noticiário:"pois é, fulano, metralharam duas escolas, o shopping fechou e o Carrefour tá fechando". Verdade? Metralharam mesmo? Fulano fala com a certeza de quem presenciou...
Olhei para as portas do Carrefour, abertas, sem nenhum movimento de funcionários que indicasse fechamento. Eram 3 e meia da tarde.
Ainda fiz umas compras pra "cobrir" o estacionamento, nas filas do caixa aquele papo:"o Brasil tá pior que o Iraque". Um cara se revoltou:"ah, então vai morar no Iraque!". Seria alguém do PCC? Não, era alguém que não estava disposto a se deixar contaminar pela boataria.
Voltei pra casa preocupado, daí fiquei analisando: o que "de fato" interferiu em meu pensamento nessa saida que mudou meu estado de espírito? Nada. Boatos. Seria verdade? Possivelmente não. Mas o "telefone sem fio" que constroem nessas situações acaba esmagando qualquer lógica.
As 5 da tarde fui buscar a Alisson no pet shop. Estava trancado e tive de bater na porta uns 10 minutos até abrirem. O trânsito parecia normal, cheguei em casa com a velha cachorro cheirosa e com um lacinho cor de rosa entre as orelhas.
E na passagem ainda vi que o Carrefour continuava aberto.